Dos estúdios
de cinema para a casa do consumidor,
as etapas da produção
de um DVD
Há quase dois
anos o DVD é tema presente nas páginas de HOME THEATER. Desde
fevereiro de 97, quando publicamos em primeira mão o teste do player
Panasonic A100, que acabava de ser lançado no mercado americano,
aumentou muito o espaço dedicado pela imprensa ao assunto. Nesse
período, surgiram vários modelos de aparelhos, e no final
de 98 começou a produção de discos no Brasil. Tudo
indica em este ano o DVD irá conquistar mais e mais adeptos, surgindo
como nova opção de lazer para os brasileiros.
Mas o que faz do DVD
o formato mais avançado que se tem hoje em áudio e vídeo?
De onde vem sua altíssima qualidade? Por quais processos passa o
disco até chegar aos players? Por que os discos Região 4
são considerados inferiores em qualidade aos seus similares da Região
1? Para responder a estas perguntass a equipe de HOME THEATER conversou
com alguns dos principais especialistas no assunto. E visitou as instalações
da Videolar, uma das empresas que mais está investindo em equipamentos
para produção de discos.
Embora seja uma tecnologia
recente, o DVD já movimenta diversas empresas e dezenas de profissionais
no país. As várias fases de produção do disco
requerem know-how especializado, que muitas vezes precisa ser trazido do
Exterior. A vantagem é que, por ser uma mídia digital, pode-se
trabalhar um grande volume de informações sem risco de perda,
o que é comum nos formatos analógicos como a fita VHS. A
Videolar, por sinal, é o maior fabricante nacional de fitas magnéticas
e já detém boa parte da tecnologia para fabricação
de DVD e DVD-ROM.
Na verdade, esse processo
começa na produção do filme para cinema. A partir
da película, é produzida uma fita digital que vai servir
de base para todas as fases posteriores, que são basicamente três:
authoring (que inclui compressão do sinal, preparação
de legendas e menu); masterização (processo industrial de
fabricação do disco com as informações gravadas);
e injeção (nome que se dá ao trabalho de gerar várias
cópias do disco).
Segundo os técnicos
entrevistados, os dois principais segredos na qualidade de um DVD estão
na fase inicial, quando a informação é digitalizada
e comprimida, e na fase de masterização, que exige alto rigor
técnico. Ao ser digitalizada, a informação transforma-se
em códigos binários que podem ser manipulados sem perda.
A compressão é necessária para que a enorme quantidade
de dados possa caber no espaço de um disco. Quanto melhor for esse
trabalho, maior riqueza de detalhes de áudio e vídeo o consumidor
poderá ver assistindo ao disco.
O primeiro problema está
na fonte dessas informações. Se o estúdio produziu
o filme em formato digital não há problema, mas se a gravação
foi feita em equipamento analógico será preciso convertê-la
em digital. Isso, por sinal, está na raiz da principal polêmica
levantada desde que surgiram os discos da Região 4 (com legendas
e menu em português). “A maior parte dos DVDs já existentes
não estão com o som em 6 canais”, diz Jorge Freitas, gerente
técnico da Microservice, tradicional fabricante de CDs que agora
está se especializando em DVDs. O que justificaria as deficiências
constatadas pela própria equipe de HOME THEATER, ao testar alguns
títulos R4 comparando-os com seus equivalentes da Região
1. "Há situações em que os estúdios enviam
os filmes gravados em fita analógica, até mesmo em VHS",
acrescenta Freitas.
É claro que
a digitalização não faz milagres. Pelo contrário:
na transferência de uma fonte analógica para digital, e principalmente
na compressão, sempre há perdas. “O melhor é conseguir
a mesma qualidade da fonte de imagem original”, comenta Marcus Franchini,
gerente técnico da Videolar. Disso depende uma série de fatores
diretamente ligados à cada etapa da produção do DVD.
Um deles é o processamento do sinal de áudio. Uma das características
mais louvadas no DVD é a garantia de se assistir ao filme em 6 canais
de áudio independentes e poder reproduzi-lo num equipamento Dolby
Digital.
Isso, porém,
nem sempre acontece. “Em 90% dos casos, os estúdios mandam as imagens
em uma fita Betacam Digital e o áudio já em 6 canais, gravado
em uma fita também digital (DA-88)”, explica Carlos Andrade, da
Vison, do Rio de Janeiro, responsável pela compressão do
filme O Paciente Inglês, entre outros. "Mas há casos em que
recebemos o material em Dolby Pro-Logic, ou mesmo estéreo", diz
ele. Nesse caso, segundo Andrade, o resultado final vai ser um DVD com
uma "aproximação do som 5.1". Mesmo quando o áudio
já vem em 6 canais, pode haver necessidade de reprocessamento. “Como
é projetado inicialmente para as salas de cinema, o áudio
é gerado com volume e dinâmica diferentes das ideais para
uma residência”, explica Freitas, da Microservice.
Quando o filme vem com áudio
analógico, o que geralmente se faz com é separar o canal
traseiro em dois e - usando um sintetizador de baixas freqüências
- criar um canal só para o subwoofer. Já em estéreo,
o processo é mais complexo ainda. Claro, dependendo do nível
dos equipamentos utilizados e do profissional que executa o trabalho, o
resultado será melhor ou pior. Como se vê, logo na primeira
etapa da produção de um DVD há diversos fatores que
podem influenciar no seu resultado final.
A etapa seguinte - a compressão
dos sinais de áudio e vídeo - também requer equipamento
e pessoal extremamente qualificados. Essas informações são
transformadas em arquivos de computador. Simultaneamente, são criados
as legendas e o menu de cada disco, detalhes essenciais para o usuário.
As legendas precisam ser rigorosamente sincronizadas com o tempo de cada
cena, e o menu é criado a partir de informações contidas
na gravação original. Isso também é feito digitalmente,
de modo que todas as informações (som, imagem, legendas e
menu) possam ser sincronizadas.
A seguir, vem o processo
de masterização que a Videolar pretende começar a
realizar a partir deste início de ano (os equipamentos para authoring
devem começar a operar em março). A masterização
começa com uma fita digital onde estão armazenados todos
os dados do filme, devidamente sincronizados. Essa fita é lida por
um feixe de laser que reproduz as informações num disco de
vidro; este dará origem ao chamado stamper, disco especial que servirá
de base à injeção dos DVDs definitivos.
Até agora, todo esse
trabalho era feito nos EUA: a Videolar recebia pronto o chamado stamper,
e a partir daí executava a injeção. Para efeito de
ilustração, as fotos das páginas ???, feitas na Videolar,
mostram equipamentos de injeção de CDs, os mesmos que serão
usados na produção de DVDs. A empresa, assim como a Microservice,
prepara-se para realizar no Brasil todo o processo, desde o início.
Pode estar começando assim uma nova fase para o DVD no Brasil.
TEXTOS-LEGENDAS:
Equipamento de leitura da
fita digital que contém som e imagem do filme.
As informações
de áudio e vídeo são comprimidas em arquivos de computador,
para poderem caber no disco.
Profissional de computação
gráfica cria as páginas do menu, a partir de imagens e texto
pré-definidos.
Criação das
legendas: cada uma delas tem seu tempo certo, controlado eletronicamente
para coincidir com as cenas.
Todas as informações
do filme estão gravadas numa fita a ser lida por um feixe de laser
que registra as informações numa superfície fotossensível
sobre um disco de vidro (glass master).
O stamper é o disco
que resulta da galvanoplastia, onde a superfície fotossensível
passa por banhos de níquel.
O stamper é colocado
numa máquina injetora, onde recebe uma superfície de policarbonato
em cada lado do disco: as duas superfícies devem ser precisamente
coladas uma à outra.
COMPRESSÃO GARANTE
VERSATILIDADE
As informações
de vídeo contidas num DVD são comprimidas por uma placa de
nome MPEG2. Este é o padrão de compressão digital
do sinal de vídeo, utilizado por todos os fabricantes. Essa placa
analisa um a um todos os quadros que compõem a imagem (30 quadros
por segundo), e conforme o grau de movimento e densidade da imagem determina
o nível de compressão.
Segundo os especialistas,
uma imagem comprimida nunca é igual à imagem original. Geralmente,
filmes muito longos exigem maior esforço de compressão, já
que uma quantidade maior de informações deverá caber
no disco. Comprovamos isso no estúdio da CareWare, empresa paulista
especializada na produção de CD-ROMs e agora DVDs. Assistimos
ao filme O Paciente Inglês - a ser lançado em breve - ainda
gerado pela fita digital e antes da compressão: é impressionante
como a imagem apresenta cores mais vivas e reais, um nível de detalhes
surpreendente e uma resolução consideravelmente superior
à do mesmo filme em DVD.
Já para o áudio
o padrão de compressão utilizado é o AC-3. Outra placa
de circuitos, de nome AC-3, identifica freqüências que
considera redundantes e simplesmente as elimina. Nessa compressão,
principalmente as altas freqüências são descartadas,
já que a partir de certo nível são inaudíveis
ao ouvido humano. Mas, não fosse tal tecnologia, seria fisicamente
impossível colocar num disco a quantidade de informações
que compõem um filme.
COMO FAZER O SEU DVD
Já é possível
transformar aquela fita VHS de um casamento ou festa de aniversário
em DVD. Claro, o som de forma alguma vai ficar em 6 canais, já que
a transferência parte de uma fonte estéreo e analógica.
Mas, ainda assim, vale a pena: o consumidor terá uma qualidade de
áudio e vídeo melhor, com direito a algumas simulações
de surround e efeitos que ele próprio pode definir com o profissional
responsável pelo trabalho. Entre as empresas que realizam esse trabalho
estão a CareWare (011-816.7551) e a Vison (021-492.1555).
PROCESSO DE PRODUÇÃO
DO DVD
AUTHORING
ESTÚDIOS DE CINEMA
FITA BETACAM DIGITAL
CODIFICAÇÃO
DE VÍDEO MPEG2
FITA DE ÁUDIO
MIXAGEM AC-3
CODIFICAÇÃO
AC-3
LEGENDAS
CRIAÇÃO DE
MENUS
TEXTOS E IMAGENS DOS FILMES
LEGENDAS, MENU, ÁUDIO
E VÍDEO PASSAM PELA CONVERGÊNCIA
FITA DIGITAL
MASTERIZAÇÃO
MASTER
INJEÇÃO
METALIZAÇÃO
COLAGEM
LEITURA DO PRÉ-MASTER
E GRAVAÇÃO DA CAMADA FOTOSSENSÍVEL
PRÉ-METALIZAÇÃO
VAPORIZAÇÃO
DE NÍQUEL (GLASS MASTER)
GALVANOPLASTIA
FONTE: CAREWARE MULTIMIDIA |