DESTRAVANDO SEU DVD

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Aos poucos, o mercado vai encontrando formas de burlar o sistema de códigos estabelecido pelos fabricantes.

Não há dúvida de que o DVD é a tecnologia do futuro. O crescimento das vendas nos mercados americano e japonês, onde o produto foi lançado primeiro, bateu todos os recordes da indústria eletrônica. Apesar disso, a implantação em outros mercados vem sendo lenta e, em alguns casos, tumultuada. O Brasil e os principais países da Europa são os que mais estão "apanhando" com a novidade. E isso tem uma explicação: o sistema de códigos regionais inventado para proteger os direitos autorais dos filmes.

Como se sabe, os estúdios de cinema só concordaram em apoiar o DVD diante da promessa dos fabricantes de aceitar uma codificação regional dos aparelhos e dos discos. Assim, o mundo foi dividido em seis regiões e todos os produtos começaram a ser fabricados com base em códigos regionais. Um disco lançado para o mercado americano, por exemplo, não pode ser reproduzido num aparelho feito para a Inglaterra, ou para o Brasil (e vice-versa). Com esse sistema, os estúdios tentavam proteger a chamada "janela" cinematográfica, pela qual um filme só pode sair em formato doméstico (disco ou fita) alguns meses depois de exibido no cinema.

Mas o que era para ser uma solução acabou virando um problema. O sistema de códigos revelou-se desastrado em vários aspectos. Agora, com o aumento do interesse pelo DVD, o próprio mercado vai encontrando alternativas. A cada dia aumenta, por exemplo, o número de oficinas que oferecem o serviço de "destravamento" de DVD players. E o que significa isso? Essas oficinas fazem uma adaptação de circuito para permitir que um aparelho americano possa reproduzir discos brasileiros (e vice-versa). "Conseguimos destravar qualquer player, de qualquer marca ou região", orgulha-se Carlos Oliveira, da empresa AVC, de Londrina (PR), uma das primeiras que se especializaram nesse serviço.

Diante da procura cada vez maior, oficinas de São Paulo e Rio de Janeiro também vão treinando seus técnicos a executarem o tal destravamento, cobrando pelo serviço algo entre R$ 100 e R$ 250, dependendo do modelo. Basicamente, o que essas empresas fazem é alterar informações contidas num circuito chamado E² PROM, onde estão armazenados os dados referentes aos códigos regionais. Esse circuito é que determina que tipo de discos o aparelho deve ou não aceitar. A alteração, segundo todos os técnicos consultados, é relativamente simples, mas o grau de dificuldade varia conforme a marca e o modelo de player.

Na prática, a proliferação desse serviço significa o fim do tal sistema de códigos. Qualquer pessoa pode comprar, digamos, um player nos EUA (Região 1) e mandar fazer aqui o destravamento, para que ele funcione também com os discos brasileiros (Região 4) que acabam de ser lançados. Ou comprar um modelo da Região 4 e convertê-lo para reproduzir também discos americanos. Estima-se que existam hoje no país cerca de 8 a 10.000 players, a maioria importados da Região 1. Os modelos da Região 4 só recentemente começaram a ser vendidos. 

Houve ainda o modelo "híbrido" da Gradiente, lançado no final de 97 e apresentado na edição nº 16 de HOME THEATER. Este é um caso à parte, pois embora tenha sido anunciado como "free-code" (ou "Região 0") não consegue reproduzir os discos da Região 4. Para isso, é necessária também uma adaptação, recomendada pela própria Gradiente. O serviço é gratuito, desde que se apresente a nota fiscal do aparelho.

Já a quantidade de discos vendidos até hoje é incalculável, mesmo porque muitos turistas os trazem na bagagem. Além disso, há várias formas de comprar discos por reembolso, ou via Internet. Só que a quase totalidade desses discos também é R1 e não toca nos players R4. Conclusão: para poder escolher seus discos à vontade e ficar livre de preocupações, o consumidor deve comprar seu player, seja R1 ou R4, e mandar destravá-lo.

Por enquanto, esse serviço é praticado de modo informal e com riscos. Ao mandar fazer o destravamento, perde-se a garantia do fabricante. Esse detalhe não tem muita importância no caso dos aparelhos adquiridos fora do país, mas pode ser crucial para quem faz a compra legalmente no Brasil. Para acomodar essa situação, as próprias oficinas estão cobrindo a garantia do fabricante, embora o tempo de garantia oferecido varie de uma empresa para outra. 

Outro problema é que os técnicos ainda estão aprendendo a lidar com a novidade. "Há dois modelos Pioneer que não descobrimos ainda como destravar", conta Fernando Silva, da PAL-M, empresa paulista que diz ter adaptado mais de 15 players em apenas um mês. Curiosamente, na década de 80 essa foi a primeira empresa no país a fazer modificações em videocassetes importados, que não funcionavam no sistema de cores brasileiro; o próprio nome da oficina é uma homenagem a esse sistema.

Paralelamente, os próprios consumidores vão descobrindo formas de se adaptar à nova situação. No forum da DVD World, primeiro site brasileiro dedicado ao DVD, são dezenas as manifestações de usuários que conseguiram, por conta própria, destravar seus players. Alguns, com mais prática em eletrônica, conseguem fazê-lo simplesmente acessando sites internacionais onde o "mapa da mina" vem descrito em detalhes. Outros são tão obcecados que descobrem códigos secretos no controle remoto do aparelho, e a partir daí conseguem destravá-lo.

A obsessão tem sua razão de ser. Afinal, quem pagou caro por um DVD player não se conforma em não poder utilizá-lo em todos os seus recursos. O principal impulso é a possibilidade, agora concreta, de assistir aos filmes com alta qualidade de som e imagem &ndash e com legendas em português. Para quem não é familiarizado com o inglês, o lançamento dos primeiros discos R4, em agosto último, foi motivo de comemoração. O interesse deve aumentar em novembro, quando a Warner promete colocar nas lojas, de uma só vez, 60 títulos em português, incluindo filmes recém-lançados nos cinemas, como Sphere e US Marshals. Espera-se que a oferta de filmes seja dez vezes maior nos próximos seis meses.

E os fabricantes, como ficam nessa história? Aparentemente, o DVD ainda não entrou na lista de prioridades da maioria deles. Pressionados pela queda nas vendas dos produtos tradicionais, quase todos têm se dedicado a reverter essa tendência, deixando o DVD como "algo para o futuro". Quanto à questão dos códigos, informalmente a maioria reconhece que a divisão regional só contribui para confundir a cabeça do consumidor menos avisado. E admite que o DVD poderia se transformar em sucesso muito mais rapidamente se não houvesse essa confusão. 

Como membros do DVD Consortium, criado em 1996 para definir as regras do novo formato, os grandes fabricantes são obrigados a respeitar a "lei dos códigos". Não podem sequer insinuar a seus clientes como destravar os players que vendem. Esse trabalho &ndash que revela-se fundamental para impulsionar as vendas &ndash terá que ser feito mesmo pelos revendedores. Ou pelos próprios consumidores, que não vão querer ficar esperando de braços cruzados.

OS CUIDADOS QUE SE DEVE TOMAR

Existem várias maneiras de destravar DVD players. Depende basicamente da marca e modelo. Segundo os especialistas consultados, os da Pioneer são os mais fáceis, enquanto os da Sony revelaram-se os mais complicados. Seja qual for, no entanto, o consumidor deve tomar alguns cuidados ao encomendar esse serviço. 

A tecnologia do DVD é muito recente, e os técnicos ainda estão pesquisando as inúmeras possibilidades de destravamento. Embora ainda haja poucos fabricantes de DVD players, os circuitos e componentes usados na fabricação variam de uma marca para outra. A Pioneer, por exemplo, que foi uma das primeiras nesse campo, ao fabricar os players armazena no circuito chamado E² PROM a memória de todas as regiões. Assim, se determinado modelo será comercializado na Região 4, por exemplo, o fabricante interrompe o circuito para que só funcione quando receber o sinal de discos dessa região. Os técnicos brasileiros descobriram que fechando novamente o circuito, com um fio de estanho (procedimento chamado tecnicamente de jumper), o player está novamente habilitado para todas as regiões. Essa é a forma mais simples de destravamento, segundo os técnicos. 

Um dos problemas do destravamento, em qualquer marca, é que alguns discos podem não ser lidos. Segundo os "destravadores", discos da Disney, por exemplo, não enviam sinal ao player que foi transformado em "Região 0". Em outros casos, o disco pode ser reproduzido mas o usuário não consegue acessar seu menu, ou perde as legendas, e assim por diante. Há divergências entre os técnicos em relação a marcas como Sony, Panasonic e Toshiba. Alguns dizem que é necessário acrescentar um novo circuito ao player, enquanto outros explicam detalhadamente como acionar os códigos através do próprio controle remoto. Assim como muitos consumidores, os técnicos também buscam informações a respeito em todas as fontes possíveis. "Conseguimos na Internet fazer um download do software da Toshiba", conta Fernando Silva, da PAL-M. Carlos Oliveira, da AVC, completa: "Temos leitores e gravadores de E² PROM que possibilitam essas alterações".

Nota-se que este é um campo complexo, o que deve redobrar os cuidados do consumidor. Quem tiver um player e quiser fazer o destravamento deve, em primeiro lugar, cercar-se de todas as informações possíveis sobre a oficina e exigir suas garantias por escrito. É importante saber exatamente o que de fato será modificado no aparelho. E, de preferência, checar com outro especialista se aquelas informações estão corretas. O trabalho leva de um a dois dias e, segundo as oficinas, não altera em nada a qualidade de som e imagem do player. Recomenda-se que, antes de retirar o aparelho, seja feito um teste "ao vivo" com discos que já se conheça. 


 
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